Birdbox Review – 5 clichês presentes no longa da NETFLIX

Birdbox Review – 5 clichês presentes no longa da NETFLIX

Birdbox é um longa produzido pela NETFLIX, lançado em 2018 e estrelado por Sandra Bullock. O filme é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Josh Malerman e lançado no Brasil sob o título de ‘Caixa de Pássaros’. Não vou entrar no mérito neste Birdbox Review sobre qual versão é a melhor, o filme ou o livro, pois eu não tive contato com o livro ainda.

Apesar de uma premissa interessante, o filme não me conquistou muito em virtude do uso exagerado de alguns clichês de roteiro. É isso o que vou explorar aqui neste review, que está repleto de spoilers (você já devia imaginar, né?). Antes de falar sobre o filme, vamos falar mais sobre essa questão do clichê.

Todo clichê é ruim?

Claro que não!

O clichê é um estereótipo, algo que é copiado de algum outro lugar e que sintetiza um significado em si. Como aparecerem em diversas obras, os clichês se caracterizam por funcionar como uma ferramenta para a construção da narrativa. Então você quer fazer uma elipse de tempo na história? Apresente um plano geral do sol se pondo e acelere a imagem para que logo em seguida o dia amanheça. Todo mundo entende que a próxima cena irá ocorrer no dia seguinte em relação à cena anterior.

Por serem amplamente conhecidos, os clichês são verdadeiros atalhos para quem escreve uma história. Eles podem ajudar no desenvolvimento da narrativa, justamente pelo fato do público reconhecer seu significado mais facilmente. Por exemplo, se o autor não possui muito tempo para explicar uma relação entre dois personagens, ele pode apelar para um clichê com a intenção de retratar de modo rápido e objetivo aquela relação e dedicar maior tempo da narrativa para o que realmente importa na história.

Portanto, não entenda esse review de modo errado! Não é porque um filme usa algum tipo de clichê no roteiro que já podemos sair por aí falando que ele é ruim ou algo do tipo. Até porque, quase todas as obras vão usar ou passar perto de algum clichê. O ser humano conta histórias há milênios, é natural que existam muitos clichês por aí.

A questão dos clichês em Birdbox é outra.

BirdBox Review – Os 5 clichês

1 – O apocalipse (quase) instantâneo.

Birdbox Review - Apocalipse

Birdbox é um filme pós-apocalíptico. Desse modo, os conflitos dessa história estão justamente nessa configuração de mundo após algo terrível ter acontecido e matado quase todos. Em Birdbox a introdução da história apresenta a personagem principal num grande conflito, depois fala sobre seu isolamento, a relação com sua própria gravidez e também com a família. No meio dessa rotina, quando a ameaça chega, ela transforma o mundo de uma vez! É quase uma caricatura de apocalipse.

Pessoas saem correndo pelas ruas desesperadas, explosões, atropelamentos, carros capotando. Tudo de uma hora pra outra. Um tanto quanto rápido demais. Nem Thanos fez seu apocalipse desse jeito após estralar os dedos em Vingadores, Guerra Infinita. Outras obras souberam como introduzir melhor uma alteração significativa no universo.

Em Ensaio Sobre a Cegueira (2008) de Fernando Meirelles, a mudança do universo começa logo nas primeiras cenas e se desenvolve de modo gradual no primeiro ato. Na série The Walking Dead, a transição para o pós-apocalipse ocorre durante o período em que o protagonista está desacordado. Essa elipse dá sentido para a mudança brusca do mundo, pois não sabemos ao certo quanto tempo ele dormiu.

Em Cloverfield: Monstro é uma invasão alienígena que acaba com a festa do protagonista e vai destruindo a cidade gradualmente. Em Eu sou a Lenda, um vírus matou milhares de pessoas e deixou cidades desertas. Quando o longa começa, o apocalipse já passou e vamos entendendo aos poucos o que ocorreu. Em Independence Day, a invasão alien demora algum tempo até mostrar a que veio.

Em Birdbox é pá, pum! Uma ameaça tão repentina e implacável, quanto difícil de acreditar.

2 – Noticiário que fornece o contexto

Birdbox Review - noticiário

Dezenas de filmes usam esse recurso, você com certeza já viu isso antes. Em Birdbox, Malorie vive em seu ateliê alheia ao que ocorre no mundo exterior. Ela praticamente nem sai de casa. Para que a personagem saiba o que está acontecendo no mundo, liga-se a televisão e milagrosamente o jornal está dando exatamente a notícia que ela precisa saber. E não é só um jornal, vários canais dão a mesma notícia aterradora justamente naquele exato momento.

A função disso é fornecer o contexto do conflito para algum personagem, dizendo também ao público o que está acontecendo e imprimir uma sensação de emergência. É um recurso tão objetivo, que não se cria nenhum tipo de suspense ao redor do fato e às vezes também fica inverossímil.

3 – Resta um

Birdbox Review - Resta Um

Coloca-se um grupo de personagens numa situação em que eles são obrigados a ficar juntos e, ao longo do filme, eles vão morrendo ou desaparecendo gradualmente. É uma maneira bem interessante de criar suspense, pois nunca sabemos ao certo quem será o próximo a morrer.

Em The Walking Dead temos essa mecânica entre o grupo de sobreviventes liderados pelo Rick.  Em Lost (2004) todos estão presos na ilha e devem trabalhar juntos para sobreviver, mas alguns se separam dos outros e vão desaparecendo. Em Alien (1979), o bichano fofinho e babão mata um por um daquela nave.

Em Birdbox eles ficam algum tempo trancados na casa onde se dá essa mecânica do resta um. Porém, um dos loucos aparece e vários morrem durante a confusão que ele arruma. O resta um acaba repentinamente e o conflito se volta para a sobrevivência de Malorie, abandonando a evolução da tensão que vinha ocorrendo.

4 – Ameaça invisível

Birdbox Review - ameaça invisível

Uma ameaça invisível é sempre amedrontadora. Enfrentar o desconhecido é um dos maiores medos dos seres humanos desde que começamos a sair das cavernas. Quando essa ameaça chega matando todo mundo ao seu redor, fica fácil sentir um medo paralisante da situação.

Em Bruxa de Blair (1999) três estudantes de cinema se enfiam numa floresta assustadora para realizar um documentário sobre a lenda da bruxa. Coisas estranhas vão acontecendo e, apesar de nunca vermos a bruxa ameaçadora, sentimos um medo danado da situação que eles estão passando.

Em Atividade Paranormal (2007), também não vemos a ameaça fisicamente, mas acompanhamos tudo o que ela faz para assustar as personagens do filme, nos assustando por tabela. Em BirdBox, a ameaça é simbolizada por uma espécie de vento que carrega folhas da floresta. Esse vento faz sempre a mesma coisa, morte instantânea para quem olhar para ele.

Ele não faz nada de diferente além disso, não provoca confusão mental, não faz terror psicológico. Só faz as pessoas se matarem instantaneamente. Depois de alguma cenas, isso perde o impacto e não causa mais surpresa. Quando Malorie se perde na floresta durante o climax do longa, não ficamos tão assustados com o que esse vento pode fazer.

5 – O arquétipo do herói solitário

Birdbox Review - Herói Solitário

Malorie representa o arquétipo do herói solitário. Ela vive no mundo dela, pintando seus quadros depressivos e sem interesse algum pelo o que se passa na sociedade. Apesar de estar grávida, ela não parece ser uma pessoa que gosta de estar com outras pessoas.

No livro A Jornada do Escritor, Christopher Vloger menciona que a jornada desse tipo de herói é sempre em direção ao convívio social. O primeiro ato inicia com o herói na solidão, no segundo ato ele é jogado para dentro da vida em sociedade e no terceiro ato é onde ele terá a escolha de voltar para a reclusão, ou ficar vivendo em sociedade.

Portanto, as dificuldades que se impõe a esse tipo de personagem estão relacionadas justamente ao relacionamento com outras pessoas. Malorie adora ficar sozinha, mas acaba presa numa casa com vários desconhecidos. Malorie não gosta de crianças, mas está grávida e ainda aceita cuidar da filha de outra mulher após sua morte.

Para reforçar a fama de durona e solitária, ela não dá nome para as crianças. Apenas chama-os de garoto e garota, impondo algum afastamento da relação materna que as crianças naturalmente desenvolveriam com ela. Após todas as dificuldades que eles enfrentam juntos para encontrar o abrigo, ela resolve dar nome às crianças. Ao fazer isso, homenageia outras pessoas que conheceu durante a jornada.

Ou seja, Malorie é um herói solitário que resolveu ficar no convívio social após a aventura. Um final previsível, pois sempre esperamos algum tipo de transformação nas pessoas, especialmente depois que elas enfrentam grandes problemas.

Birdbox Review – uso excessivo de clichês

Concluindo essa questão dos clichês neste Birdbox Review, penso que o longa faz um uso praticamente irrestrito dos clichês. Ao se apoiar nesse tipo de ferramenta narrativa, a trama se distancia da originalidade e apresenta uma narrativa pasteurizada, que cumpre a função de carregar a história pra frente com certa previsibilidade.

Isso é percebido também na maneira quase caricata de se retratar o apocalipse e o abrigo do final do filme e também na dinâmica do good cop / bad cop que ela desenvolve com Tom e as crianças. A premissa do longa é interessante, mas não causou o impacto que poderia.

Além dos clichês, ainda há mais um ponto que merece observação.

A mecânica da escassez, mas nem tanto.

Essa situação acontece discretamente durante todo o filme e é o que reduz pouco a pouco o impacto do clímax. Quando o vento invisível chega à cidade e as pessoas começam a morrer instantaneamente, uma série de dificuldades irão se impor na trajetória de Malorie. Essas dificuldades deveriam elevar a tensão da narrativa, sobrepondo-se umas às outras, criando todo um novo potencial para a sequência das corredeiras e da selva, que são o clímax do longa.

Contudo, sempre quando uma dificuldade clara aparece, ela é logo resolvida para que a próxima possa chegar. Alguns conflitos surgem e são resolvidos nas cenas seguintes, de modo linear, praticamente sem colaborar de modo significativo para a elevação da tensão. Ou seja, a curva de tensão do filme está mais parecida com uma onda horizontal do que uma curva ascendente, pois toda vez que a tensão começa a subir, ela é logo resolvida.

Estar grávida numa situação de apocalipse é perigoso? Malorie tira de letra, pois ela é o clichê de personagem durão. Ficar confinado com várias pessoas numa casa quase sem comida? Racionamento, pra quê? Malorie e Tom vão ao mercado. Perder o cobertor e os mantimentos no meio do rio dá uma bad? Nem tanto! Malorie invade uma casa e se reabastece após ouvir o barulho feito por um sinalizador de bambu balançando ao vento, mesmo estando no meio de um rio a dezenas de metros de distância.

Alguém pode dizer: “Ah! Mas a Malorie já estava há cinco anos usando a venda e aprimorou a audição dela”. Isso faz sentido, realmente. Porém, se fosse verdade, ela não precisaria escolher uma das crianças para ver onde é a entrada para o abrigo. Bastaria ela ouvir os pássaros lá do meio do rio também.

Birdbox Review - Escassez

Na última cena do filme, temos a coroação dessa tendência narrativa de resolver todos os conflitos dos personagens. Quando Malorie observa as crianças se divertindo no final do filme, uma mulher do abrigo surge do nada com roupas secas, já que ela se molhou horas atrás quando estava no rio. Além de não contribuir em nada para a história, essa personagem é uma interferência na emoção de Malorie, que finalmente se aceitou na condição de mãe das duas crianças.

E você, concorda com o que escrevi nesse review? Ou tem outra opinião? Deixa aí nos comentários!

Atuo como roteirista e produtor executivo de TV há 12 anos. Passagens por BAND, SBT e produtoras independentes no departamento de roteiro e desenvolvimento de projetos com trabalhos exibidos no Multishow, Canal Sony, SBT, Disney Channel e NETFLIX. Auxilio produtores a formatarem seus projetos com as consultorias em produção executiva e roteiro.

2 Comentários

  1. Dener Giovanini 3 meses atrás

    Excelente análise do filme! Concordo integralmente com tudo o que está no texto. Inclusive me ajudou a entender melhor o roteiro. Parabéns!

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