Eu comecei a escrever com 15 anos mais ou menos. Quando digo “escrever” me refiro ao ato de contar histórias e não à capacidade de escrever em si. Alguns anos antes eu havia tentado iniciar uma carreira como desenhista de história em quadrinhos, mas na medida em que meus rascunhos tinham mais textos do que desenhos, comecei a entender que talvez minha praia fosse outra.
Primeiros exercícios de escrita criativa
Um dos primeiros desafios que qualquer jovem escritor enfrenta é: sobre o que vou escrever? Eu não tinha muitas ideias de temas, então um exercício legal que eu gostava de fazer era ler um livro de um autor clássico e escrever um conto com base em seu estilo.
Depois de ler Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquéz, escrevi um conto chamado “A Vila do Asfalto Quente”. Contava a história de uma jovem menina que morava num aglomeramento urbano na beira de uma estrada em algum lugar que fosse perto da cidade grande e do sertão ao mesmo tempo.
Depois de ler Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, escrevi um conto chamado “O Propósito das Flores”, exercitando esse estilo de narrativa psicológica e reflexões sobre as relações humanas que ele fazia tão bem. Também fiz algo parecido depois de ler Ensaio Sobre a Lucidez, de José Saramago e comecei uns rascunhos de um conto de ficção científica depois de ler 1984, de George Orwell.
Foram ótimos exercícios, mas hoje consigo entender que essas foram histórias que saem do nada e vão a lugar nenhum. Isso ocorre porque o meu processo de escrita não foi planejado e eu também não tinha muito assunto para falar.
Eu só pensava sobre a história enquanto a escrevia. Durante as releituras eu ajustava as incongruências e no final saia um conto completinho, porém sem mensagem. Tinha história, não tinha propósito.
Foi muito bom para eu entender um pouco mais sobre ritmo de escrita e o estilo desses grandes autores. Também me ajudou a destravar o ato de escrever. Em outras palavras, o ato de ordenar conceitos, ideias e pensamentos numa sequência que faça sentido e seja interessante para quem lê.
Estudos em Roteiro e Estrutura

Quando entrei na faculdade de Rádio e TV, procurei me especializar em roteiro porque era a parte do audiovisual que mais tinha a ver com escrita. Fiz vários cursos livres e comecei a entender melhor a importância da estrutura para as narrativas.
Escrever sem pensar na estrutura é como esculpir com os olhos vendados. Se você tiver muito talento pode até fazer uma estátua desse jeito, mas o acabamento não vai ser o mesmo de quem fez o mesmo trabalho com os olhos abertos.
Aristóteles, lá na antiguidade, já mandava super bem nessa parte em sua estrutura clássica de 3 atos separados por momentos que ele chamou de peripécia – adoro essa palavra – e que hoje chamamos de pontos de virada. Tem quem odeie, tem quem ame. Eu amo.
Na época em que trabalhava no SBT, eu ficava preso lá até tarde toda segunda-feira por conta do rodízio do meu carro. Ou seja, das 18h00 até às 20h00 eu ficava lá sem fazer nada.
Para exercitar minha capacidade de aplicar a estrutura de 3 atos, eu comecei a fazer um exercício chamado Um Conto em Uma Hora. Era bem legal. Eu pedia para as pessoas me enviarem sugestões de temas e personagens para os contos e o desafio era usar todas as referências – ou pelo menos a maioria delas – num único conto e terminar de escrever tudo em até uma hora.
E para provar que eu não estava roubando, eu postava o conto no meu blog antes de pegar o carro pra voltar pra casa. Os contos começavam sempre com o horário em que eu comecei a escrever depois do trabalho (18h e alguma coisa) e terminavam até uma hora depois.
A grande vantagem desse tipo de exercício é que ele te obriga a tomar decisões narrativas mais ágeis para que seja possível finalizar o conto a tempo. Foram várias as vezes que eu matei personagens desnecessários para fechar uma trama rapidamente, ou tomei atalhos para resolver conflitos que acabaram resultando em cenas inesperadamente interessantes.
Fazer esse tipo de exercício vai aguçar o seu poder de síntese e te fará pensar: será que realmente preciso dessa cena/personagem na história para que ela faça sentido e seja legal?
Se não for, corta.
Storyline e o poder de síntese.
Depois de vários anos trabalhando na produção independente, tive contato com diversos tipos de projetos e autores, tanto novos quanto os mais experientes. Comecei então a reparar em como eles falam sobre seus projetos, seja num pitching ou numa conversa informal.
Houveram situações em que perguntei sobre o que se tratava o filme/projeto e me vinham respostas enormes repletas de referências a artistas, cineastas, autores, fotógrafos, escolas artísticas e diretores.
Alguns falavam mais sobre obras dos outros do que sobre o próprio filme que queriam fazer. Por outro lado, outras pessoas diziam claramente qual era o objetivo dela em fazer o filme e porque tinha escolhido aquele tema para enviar sua mensagem.
Por algum motivo isso me passa a confiança de que essa pessoa sabe o que está fazendo, ou pelo menos sabe onde quer chegar. Se o autor tem dificuldade em expressar em poucas palavras a motivação do seu filme, talvez ele não tenha isso definido de modo tão claro em sua história.
É muito fácil se perder no processo de escrita. Na medida em que se escreve, são muitos os caminhos que se abrem para a evolução da história. Trabalhar com uma estrutura ajuda muito nesse sentido, pois ela te orienta e não deixa você ir tão longe nas viagens narrativas.
A estrutura é o que dá suporte para sua história. E sua história é o que você pretende dizer, sua mensagem. Se você não tem o que dizer, então não há a necessidade de se escrever uma história.
Um modo de entender melhor isso é o exercício de escrever a storyline da sua trama. Um resumo em duas sentenças – algo como três linhas de texto – que consegue apresentar os elementos fundamentais da sua história.
Já escrevi sobre storyline no meu blog no passado, vale dar uma conferida.
Se você não consegue escrever uma storyline curta que represente bem a sua história, talvez você não tenha ela bem definida ainda na sua mente. Chegar nessa síntese não é algo fácil e te ajudará a focar naqueles elementos que são realmente fundamentais para sua trama funcionar.
Observações e reflexões
Atualmente entendo que é importante olhar mais atentamente para o mundo ao meu redor, para as minhas relações e todo o resto que me cerca, e reparar nas carências que estão presentes nesses lugares.
Refletir com calma sobre os temas sobre os quais escrevemos é uma parte do processo criativo que não pode ser negligenciada. Percebendo as carências, posso refletir melhor sobre quais tipo de mensagens e histórias as atendem.
A partir daí o processo criativo se torna a aplicação das ideias nas estruturas para contar a história de modo interessante para esse público.
Espero que essas três dicas de exercícios ajudem em seu processo criativo também.

