Já faz algum tempo que eu ouvi a expressão “o audiovisual é uma indústria de protótipos”. Foi num desses eventos de mercado, numa mesa sobre políticas públicas e a pessoa explicava que o produto audiovisual é produzido apenas uma vez e comercializado várias vezes, enquanto que produtos de outras indústrias são produzidos repetidamente de maneira padronizada e comercializados individualmente.
Você produz uma série para um canal de TV e depois licencia a mesma série para uma plataforma de streaming sem precisar produzir tudo de novo. Se a Apple vende um iPhone, ela precisa produzir outro igualzinho para fazer uma nova venda.
Nas indústrias em geral, as linhas de produção são criadas para atender essa escala de produção padronizada. A única linha de produção que acaba quando o produto é concluído é a linha que produz um protótipo. Vem daí o paralelo.
Audiovisual inovador fala com a audiência
Acho ótima a definição que esse termo traz e eu adicionaria que o protótipo é o resultado final de um processo de desenvolvimento. E isso tem uma relação direta com a inovação e com o diálogo com o público.
Na indústria audiovisual brasileira, o investimento em desenvolvimento não tem a relevância que deveria.
Ao investir em pesquisa e desenvolvimento para um novo tipo de vidro mais resistente, a Apple consegue agregar um valor ao seu produto que os concorrentes não possuem e assim ganhar mais relevância no mercado. Ela testa o novo tipo de vidro num protótipo. Se bem sucedido, o novo material é implantado na linha de produção e um novo modelo do iPhone é lançado.
A pesquisa que a Apple fez para chegar no novo tipo de vidro pode ter levado anos e custado muito dinheiro. Mesmo assim o investimento foi feito. É dessa maneira que se exploram novas fronteiras e se impulsiona uma inovação de produto. Tudo para atender a demanda do público. Afinal, sem demanda não existe negócio. Portanto, o público deve ser o destinatário da inovação do produto.
Na média, nosso audiovisual não pratica essa cartilha. É um problema que existe há muito tempo. Apesar disso, é comum vermos empresários e representantes do poder público falando sobre investimentos em inovação e atualização tecnológica no audiovisual.
Sobre o que eles estão falando, afinal?
Inovação e tecnologia de produção audiovisual

A inovação pode ser pensada em dois aspectos: o de produto e o de processo. Quando uma produtora compra uma câmera nova, atualiza sua ilha de edição, investe em infraestrutura de estúdios, ela está atuando com inovação de processos – nesse caso, uma inovação baseada nos fornecedores de tecnologia e equipamentos.
O que diferencia uma ilha de edição antiga de uma nova é sua capacidade em fazer a mesma tarefa – editar vídeo – porém com mais qualidade, velocidade, praticidade e com um menor custo. O produto final em si não muda, apesar dele ser beneficiado com custo e prazo de produção mais baixos.
A inovação de produto no audiovisual está relacionada à criação e ao desenvolvimento de roteiro, embasados por pesquisas de conteúdo e de audiência, além das consultorias e laboratórios que se fizerem adequados.
Na história recente da nossa indústria audiovisual, tivemos um breve período em que ocorreu o investimento mais significativo em desenvolvimento, mas esse tempo passou. Essa intermitência nos fez perder anos de trabalho e isso é refletido na baixa demanda por alguns de nossos produtos audiovisuais.
O problema da produção independente não é a tal “falta de roteiristas” ou a falta de bons projetos no mercado. Profissionais da escrita talentosos e criativos existem aos montes. O que falta é o investimento consistente em desenvolvimento e roteiro.
Sem isso, não há como ter uma produção constante e relevante de projetos. A inovação fica condicionada ao acaso de algumas mentes brilhantes com boas oportunidades nas mãos.
Claro que o reconhecimento do público é ótimo quando acontece, mas casos isolados não sustentam e nem desenvolvem uma indústria no longo prazo.

