Audiovisual e o investimento em P&D

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No artigo anterior, comentei sobre a importância do investimento pelas empresas do setor audiovisual na etapa de desenvolvimento de seus projetos, buscando fomentar a inovação de produto. 

A falta desse tipo de investimento faz com que a nossa produção cinematográfica e audiovisual, apesar de relevante em termos de quantidade, não seja tão relevante assim quando o assunto é audiência e foco no público. 

A TV e o VoD no Brasil são inundados por formatos de programas estrangeiros, enquanto os filmes brasileiros têm um desempenho médio muito baixo nas salas de exibição. Uma grande parte desse conteúdo é produzido com equipamentos de ponta – inovações de processo – o que explicita a falta de investimento em inovação de produto.

Investimentos muito baixos e não recorrentes em P&D

Para fazer essa análise, estou trabalhando com dados do FSA, que é o principal mecanismo de fomento público ao mercado de cinema, televisão e games. Os dados foram retirados da plataforma OCA da Ancine. 

Considerando os recursos disponibilizados do FSA entre o período de 2009 a 2018, foram investidos em produção R$ 1,6 bilhões, enquanto no mesmo período o investimento em desenvolvimento foi de R$ 138 milhões. Ou seja, o investimento em produção pelo FSA supera em mais de 10 vezes o investimento em desenvolvimento.

Investimentos em P&D do FSA no Audiovisual

Mas isso não é uma exclusividade da indústria audiovisual. Outros setores da economia brasileira apresentam investimentos igualmente baixos na área de P&D. Um estudo da FGV/EBAPE, conduzido pelo pesquisador Paulo Negreiros Figueiredo, ressalta que somos um país que inova pouco. 

A taxa de inovação no Brasil nos últimos 20 anos, acompanhada por meio do número de registros de novas patentes, é inferior a 1%. Para piorar ainda mais esse dado, a maioria desses registros de patentes são uma espécie de puxadinho em coisas que já existem e não uma inovação por completo. 

Outro ponto do artigo que chama a atenção é que o setor público é quem carrega os investimentos nas costas, com mais de 50% dos montantes investidos em P&D. A taxa média nos países da OCDE é de 40% para o setor público e 60% para a iniciativa privada. Em países como China e Coréia do Sul o investimento privado em P&D chega a 70%. 

A iniciativa privada investe pouco em P&D no Brasil e deixa essa tarefa para o Estado. No audiovisual, o Estado investe pouco em P&D e privilegia produção. 

Proporção do investimento em P&D no audiovisual

“O Brasil tem um longo histórico de concentrar a pesquisa básica nas universidades e institutos públicos de pesquisa. Ocorre que várias dessas pesquisas, com algumas notáveis exceções, não se conectam com as demandas da sociedade e da economia”, comenta Figueiredo em seu artigo.

Esse padrão se repete no setor audiovisual, com o agravante de que as empresas do setor são ainda mais dependentes do fomento para sobreviverem de um modo geral e não apenas para realizarem seus investimentos em P&D. O resultado é um aporte irrelevante em desenvolvimento com foco em inovação de produto. 

Os valores mais expressivos aportados em P&D no audiovisual ficam a cargo do estado – por meio dos editais e leis de incentivo – e eles são ínfimos quando comparados ao volume que é investido em produção. Há ainda o agravante de que em muitos dos mecanismos de fomento quem decide quais projetos serão contemplados é um júri ou um sistema de pontuação, que parecem dar quase nenhuma importância para as demandas do público e da sociedade. 

Desempenho dos nossos filmes em salas de exibição

Podemos perceber essa distância entre o que é produzido e o que é consumido por meio do relatório anual do mercado cinematográfico de 2023, publicado pela ANCINE. 

O market-share do cinema brasileiro nas salas de exibição foi de 3%. Ou seja, 97% é filme estrangeiro. A lista de TOP 20 bilheterias do cinema em 2023 não traz nenhum filme brasileiro. Isso significa que o público prefere massivamente o cinema que vem de fora. Esse dado deve melhorar no próximo relatório, já que “Ainda Estou Aqui” conquistou seu lugar na quinta posição entre as maiores bilheterias no país em 2024. 

Acho que existe uma série de fatores que contribuem para um desempenho tão ruim dos filmes brasileiros. Este é um problema que possui vários lados. Dentre eles, estou certo de que a falta de investimento sistemático em P&D com foco em inovação de produto possui um papel relevante. 

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