Bandersnatch, vale a pena ver? – Review

Bandersnatch, vale a pena ver? – Review

Bandersnatch é o primeiro filme interativo da NETFLIX. Como parte da série Black Mirror, era inevitável que a temática do longa estivesse intimamente relacionada ao universo da tecnologia e aos altos e baixos da franquia. O grande problema desse projeto não está na temática em si, mas sim na narrativa. Enquanto um projeto de game como The Last of Us se aproximou da linguagem cinematográfica com grande êxito, o mesmo não aconteceu no caminho inverso, com essa primeira incursão no mundo da interatividade feita pela NETFLIX.

Antes de mais nada, é importante dizer que é muito interessante ver esse tipo de recurso na plataforma e eu realmente torço muito para que mais projetos do tipo apareçam e que essa linguagem evolua com o tempo. Bandersnatch é uma grande quebra de paradigma, mas na minha opinião poderia ser muito mais interessante. Bora pro review.

BlackMirror – Bandersnatch, contexto.

Bandersnatch e as “vozes” na cabeça de Stefan.

O longa se passa no ano de 1984, uma referência ao livro de George Orwell dentro da década que a NETFLIX tanto adora, e narra a história de Stefan, um programador de 19 anos de idade que mora com o pai viúvo. Ele é aficcionado por um livro chamado Bandersnatch, que possui uma estrutura conhecida como livro-jogo. Durante a leitura você toma as decisões para o seu personagem e, desse modo, muda o rumo da história.

Pode parecer algo novo e inusitado para algumas pessoas, mas esse formato de livro é muito familiar pra quem é fã de RPG. Eu tive alguns livros desse tipo no início da adolescência. Meu preferido era o Fúria de Príncipes – Caminho do Guerreiro e Caminho do Feiticeiro, escrito pelos gênios Steve Jackson e Ian Livingstone que costuraram uma narrativa em dois livros distintos que podem ser lidos/jogados por duas pessoas ao mesmo tempo, ou por apenas um único leitor. Uma obra prima do gênero.

Stefan perdeu a mãe num acidente de trem quando tinha cinco anos de idade. Ele sente algum remorso por essa morte, já que fez ela se atrasar para sair antes de uma viagem o que a obrigou a pegar um trem que se acidentou. O motivo desse atraso foi o fato de seu pai ter escondido o coelho de pelúcia favorito dele para que o garoto não brincasse de boneca. Ele culpa o pai pela morte da mãe também.

Stefan está desenvolvendo um jogo de video-game baseado no livro Bandersnatch. Ele consegue marcar uma reunião com o dono de uma produtora de jogos para mostrar sua demo, na esperança de conseguir desenvolver o jogo completo. Lá ele encontra com Colin Ritman, um ídolo e também o desenvolvedor mais badalado da empresa. Colin cumpre um papel de mentor na narrativa com diálogos pra lá de meta-linguísticos.

O trauma relacionado à morte da mãe é o principal obstáculo que Stefan precisa vencer, pois o remorso e a culpa além de não ajudarem ele a desenvolver seu jogo de videogame, ainda trazem um clima tenso para a relação com o pai. Ele frequenta sessões de terapia e toma medicação para tratar o problema. Até aqui, tudo lindo. Setup bem estruturado para a história, ficamos com a impressão de que a coisa vai longe. Porém….

Bandersnatch é filme ou é jogo?

Logo nos primeiros minutos do longa já nos deparamos com uma das telas de escolha que irão aparecer durante toda a obra. São 10 segundos em que o espectador/jogador deve tomar uma decisão e mudar o rumo do personagem dentro da história.

Como todo bom jogo de videogame, a primeira fase serve basicamente para ensinar o jogador a como jogar o jogo. As primeiras telas de escolha que aparecem são para tomar decisões simples, como o que comer no café da manhã ou que música ouvir no toca fitas.

Algumas das decisões erradas que tomamos ao longo do filme nos levam para uma tela de game over como a que podemos ver abaixo. Nela é revisada a última cena de tomada de decisão e você tem a opção de tentar novamente. Ao decidir tentar mais uma vez, um necessário clipe de resumo das cenas anteriores atualiza o espectador sobre qual trecho da linha do tempo ele está e onde foi o último ponto de decisão da narrativa.

Tela de Game Over do Bandersnat

Voltando para a história, o grande desafio de Stefan é desenvolver o jogo e o principal obstáculo para isso é o trauma relacionado à morte da mãe, simbolizado também pela relação problemática com o pai. Ao começar o desenvolvimento do game ele embarca numa confusão mental que só vai aumentar com o tempo, se desdobrando para os cinco finais da obra. As decisões do jogador começam a tomar um peso maior no destino do personagem e as telas de game over se tornam mais frequentes.

Os pontos negativos

Bastidores de Bandersnatch

Esses becos sem saída na narrativa se caracterizam por finais abruptos que deixam muita coisa em aberto na narrativa principal. Não há nada de errado em deixar informações soltas e finais abertos a interpretação do espectador. Porém, em Bandersnatch acredito que isso é muito mais uma imposição da linguagem escolhida do que uma opção do diretor/autor da obra.

Ao escolher realizar um filme interativo, os roteiristas optaram por simular a linha de aprendizado que um jogador de videogame vivencia. Não é a linha narrativa do jogo em si, mas sim a da experiência do jogador. As telas de game over e os clipes de recapitulação são imposições dessa estrutura narrativa e que podem confundir a cabeça de muita gente.

Para completar o hall de decisões equivocadas, o longa se aventura numa meta-linguagem completamente desnecessária inserindo a própria NETFLIX na história. Se a ideia era causar algum impacto, para mim isso meio que quebrou o universo da história e surtiu o efeito contrário.

Simular a linha narrativa de um jogo de videogame faz sentido para o tema do episódio, já que se trata de um personagem que está desenvolvendo seu próprio jogo. Mas se a interatividade da narrativa fosse mais fluída, sem os becos sem saída, sem as telas de game over e sem os clipes de recapitulação, o impacto das decisões do espectador/jogador teriam maior efeito.

Afinal de contas, num filme a história deve sempre andar para frente e isso não acontece nessa obra. Vale a pena ver/jogar Bandersnatch muito mais pela inovação de linguagem na plataforma. Não espere uma grande história.

Atuo como roteirista e produtor executivo de TV há 12 anos. Passagens por BAND, SBT e produtoras independentes no departamento de roteiro e desenvolvimento de projetos com trabalhos exibidos no Multishow, Canal Sony, SBT, Disney Channel e NETFLIX. Auxilio produtores a formatarem seus projetos com as consultorias em produção executiva e roteiro.

2 Comentários

  1. Lica 3 semanas atrás

    Exatamente o que eu pensei sobre o filme! Nao deveria ter mencionado Netflix em nenhum momento, quebrou o clima do filme…
    amei esse review !!

    • Autor
      Matheus Colen 3 semanas atrás

      Valeu, Lica !!

      E qual final você gostou mais? Eu achei mara aquele da luta. Uma pegada bem Kill Bill. rs

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