Algumas impressões sobre o Rio2C 2019

Algumas impressões sobre o Rio2C 2019

Entre os dias 23 e 28 de Abril de 2019, aconteceu na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, a segunda edição do maior evento de audiovisual, inovação e música da América Latina: a Rio2C 2019. A conferência reuniu produtores, criadores e os mais importantes players do mercado brasileiro e internacional. Eu estive no evento entre os dias 23 e 26 e darei minhas impressões neste artigo sobre o que eu vi e ouvi por lá.

ANCINE e TCU foi o assunto do ano na Rio2C 2019

Não tinha como ser diferente. O embate entre a ANCINE e o TCU, iniciado em 2018 e agravado em Março de 2019, foi o assunto que mais surgiu nas conversas com produtores e players do mercado.

O mercado audiovisual brasileiro como um todo foi surpreendido por um acórdão do TCU recomendando a paralização dos processos de fomento gerenciados pela ANCINE, até que a agência tenha capacidade operacional para analisar todas as prestações de contas relacionadas aos projetos autorizados.

Neste podcast da Cinem(ação), eu e o produtor e roteirista Gustavo Colombo, falamos um pouco sobre o cenário que veio se desenhando desde a publicação do acórdão. São cerca de duas horas de podcast, onde explicamos tudo o que aconteceu até uma semana antes do evento.

Nervosismo entre os produtores independentes

Boa parte dos produtores independentes com quem conversei demostraram nervosismo com relação ao assunto. Mesmo os que fizeram as rodadas de negócios não estavam otimistas com as reuniões, já que a principal alternativa de financiamento da produção está temporariamente congelada.

O mercado de produção independente é financiado basicamente por dois mecanismos de fomento público: o Fundo Setorial do Audiovisual, que teve seus editais alterados pela atual presidência da ANCINE colaborando na insegurança dos produtores, e a Lei do Audiovisual, mecanismo muito utilizado pelos próprios players do mercado para se tornarem co-produtores dos projetos, ao lado dos produtores independentes.

Esses dois mecanismos possuem o mesmo modelo de prestação de contas, que é regulado e fiscalizado pela ANCINE. Como esse modelo está sendo contestado pelo TCU, há um potencial grande de paralização de todo o fomento. Alguns produtores chegaram a desistir de projetos, outros perderam o timing da produção. O clima não era lá muito bom.

Todos aguardavam com ansiedade o painel da ANCINE que foi realizado na sexta-feira, em que o presidente Christian de Castro falaria sobre o assunto do TCU. O resultado foi que o painel não trouxe nenhuma novidade. No final daquele dia, circulou a informação de que os recursos apresentados contra o acórdão do TCU seriam julgados na terça-feira seguinte ao evento.

Hoje sabemos que o TCU não pretende paralisar as atividades da ANCINE, apesar do acórdão ter sido bastante claro nesse sentido. Diz, depois desdiz e joga a culpa nos outros. É a política sendo política.

Players seguem a vida

Se por um lado os produtores estavam nervosos, os players estão seguindo seus trabalhos. Muitas rodadas de negócios aconteceram com players nacionais e internacionais e certamente ajudaram a conectar melhor o mercado brasileiro.

Com exceção da FOX, que foi recentemente comprada pela Disney e aguarda uma definição editorial interna, os outros canais e distribuidores continuam olhando os projetos e trabalhando os modelos de financiamento levando em conta o uso das leis de incentivo e do FSA.

Não é possível dizer que eles estavam otimistas, porém os players com quem conversei estão seguindo seus trabalhos, selecionando projetos e trabalhando as produções. A vida continua, apesar do imbróglio do fomento.

Estrutura do evento

A saudade do hotel Windsor Barra também foi muito falada entre os participantes do evento. A Cidade das Artes é um local grande o suficiente para comportar o volume de pessoas que frequenta a conferência. Contudo, houveram muitas reclamações com relação às opções de alimentação, higiene dos banheiros e a localização da Cidade das Artes, relativamente afastada de centros comerciais, restaurantes e shoppings.

O ponto positivo foi a presença de VANs para fazer o traslado para o Barra Shopping e os hotéis oficiais do evento. A área de inovação e realidade virtual estava muito semelhante ao que foi apresentado no ano anterior, com pouquíssimas novidades. Apesar de empresas como a Microsoft estarem apresentando novas tecnologias nessa área, não houve muita coisa a esse respeito. (Dica: semana que vem vou postar um vídeo bem bacana sobre o Hololens 2 aqui no blog)

Conteúdo dos painéis

Devido a agenda apertada de reuniões, não consegui comparecer aos painéis do evento neste ano. Portanto, o que escrevo aqui é reprodução do que ouvi dos colegas. Apesar da programação interessante no calendário da conferência, o tema de alguns paineis não foi abordado em profundidade, isso quando a palestra não foi usada como ferramenta de divulgação das empresas participantes.

De certo modo, falar das empresas e divulgar o trabalho faz parte desses paineis. Creio que o problema maior é não se aprofundar no assunto. Como foram dezenas de palestras e debates, a impressão que tenho é que no geral o conteúdo deve ter sido bom, pois as reclamações nesse sentido foram poucas.

NETFLIX e VoD chamam a atenção

Devido ao problema da ANCINE com o TCU, os produtores independentes estavam animados com a possibilidade de se aproximarem de players de VoD, que costumam trabalhar com dinheiro bom.

A Netflix divulgou que produzirá 30 conteúdos originais no Brasil nos próximos dois anos. A maior disputa no mercado de VoD pode reacender o otimismo dos produtores independentes. São vários os players que estão entrando nesse mercado.

No Brasil está se desenhando um cenário onde os principais produtores de conteúdo local, ou seja, canais de televisão aberta, estão elaborando suas plataformas para fazer frente à potência da NETFLIX e de players como Amazon Prime Video, Disney+ e Apple. GloboPlay, que reúne conteúdos do grupo Globo, incluindo os canais Globosat e os filmes da Globo Filmes, e PlayPlus, da Record, são dois exemplos.

Como o VoD ainda não está regulado no Brasil o setor não contribui com a CONDECINE, que é a principal ferramenta de arrecadação de dinheiro para o FSA. Como a situação na ANCINE até o momento é de conflito político e o Conselho Superior de Cinema ainda não fez suas reuniões em 2019, a regulação do VoD não deve ocorrer tão brevemente.

Atuo como roteirista e produtor executivo de TV há 12 anos. Passagens por BAND, SBT e produtoras independentes no departamento de roteiro e desenvolvimento de projetos com trabalhos exibidos no Multishow, Canal Sony, SBT, Disney Channel e NETFLIX. Auxilio produtores a formatarem seus projetos com as consultorias em produção executiva e roteiro.

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