Multichannel Networks são disruptivas?

Multichannel Networks são disruptivas?

A internet é um meio muito dinâmico. Muitas das tecnologias e aplicativos que foram criados na rede mundial de computadores nos últimos anos  são chamados de disruptivos. São ferramentas que mudam o mercado de um modo tão drástico, que ele nunca mais voltará a funcionar do mesmo jeito depois delas. Lembram o que o Napster fez com a indústria fonográfica? Ou o que o Uber vem fazendo com os taxis? Esses são apenas dois exemplos de empresas com modelos de negócio disruptivos.

Toda essa introdução é para dizer que, as multichannel networks vão se tornar modelos disruptivos para o mercado de mídia e televisão. Num futuro próximo, as maiores empresas de mídia serão Multichannel Networks (MCN). Acho sempre complicado fazer esse tipo de previsão, porém os fatos já apontam essa tendência. Mas o que raios é uma MCN?

O que é uma Multichannel Network?

Uma Multichannel Network é uma entidade que une, ou que agrega, diversos canais do YouTube sob um mesmo teto. As MCNs surgiram dentro da plataforma do Youtube, mas nada tem a ver com o Google. São empresas independentes que possuem em seu portfólio alguma diversidade de canais, com estratégias de conteúdo que vão muito além do YouTube.

A vantagem desse modelo é que as MCNs conseguem alavancar a audiência de canais menores, negociam melhores preços de anúncios e oportunidades comerciais para seus canais, dentre outras coisas.

E porque MCN são disruptivas?

Multichannel Networks

A internet e a democratização dos meios de produção estão mudando alguns paradigmas de audiência. Se antes tínhamos as gravadoras, emissoras e editoras como as principais fornecedoras de conteúdo, hoje nós estamos testemunhando a ascensão das plataformas digitais. Cada vez mais, a indústria de mídia tradicional se vê obrigada a dividir espaço no mercado com os produtores independentes.

No mercado editorial, as revistas e jornais perderam espaço para blogs e sites especializados. Os livros impressos estão dividindo o mercado com os leitores de eBook, que já podem ser produzidos pelos próprios autores. Na música, produtores independentes possuem meios para gravar seu próprio som com qualidade e lançar diretamente na internet. Não existe mais o filtro do produtor ou do executivo da gravadora. Se o produto for bom, ele vai atingir o público.

Na televisão, vemos a audiência caindo ano a ano, perdendo espaço para as plataformas baseadas na internet. Sejam para os milhões de canais do YouTube, alimentados por um exército de produtores independentes, ou para os poderosos catálogos de serviços como NETFLIX e Amazon Prime.

Tudo isso é fruto da evolução da tecnologia. Hoje em dia, os equipamentos de áudio e vídeo não são mais tão caros como já foram em outros tempos. E a constante evolução do hardware, facilita o acesso a recursos de última geração para a parcela dos produtores que não possui a segurança que o caixa de uma grande empresa oferece.

Estamos vivendo um período de descentralização dos meios de produção de conteúdo. Se a produção industrial tem por característica a centralização e as hierarquias, onde poucas pessoas decidem o conteúdo que será consumido por milhões, nos meios digitais o pulo do gato está justamente na descentralização e numa certa ausência de hierarquias.

Com ideias na cabeça, equipamentos razoáveis e vontade de produzir, qualquer um pode colocar seu conteúdo no ar sem precisar de um produtor ou executivo lhe dizendo se isso é bom ou ruim. E a experiência mostra que se o conteúdo for verdadeiro, ele vai ter sua parcela de audiência.

A fábrica de celebridades

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Kéfera. Fenômeno teen no YouTube, está gravando seu primeiro longa metragem.

Com isso em mente, vamos voltar a falar das MCNs. Imagine um canal do YouTube sobre maquiagem que tenha cerca de 10 milhões de inscritos. Como parte do seu plano de mídia, o conteúdo desse canal não está restrito apenas ao YouTube. Ele tem também um website e perfis nas principais redes sociais. O grande número de inscritos no canal lá do YouTube facilita a alavancagem da audiência no site e nas redes sociais. E o contrário também acontece. Milhões de seguidores nas redes sociais vão ajudar a conquistar novos inscritos para o canal do YouTube.

Vamos imaginar agora quais seriam as principais possibilidades de monetização desse conteúdo:

  • Anúncios dentro do YouTube;
  • Anúncios no site, pacote de mídia;
  • Conteúdo patrocinado no site, no YouTube e nas redes sociais.
  • Campanhas publicitárias e presença do apresentador do canal em eventos.

Portanto, de uma maneira bem simples e rápida, conseguimos elencar quatro fontes distintas de financiamento para o mesmo conteúdo. Um canal forte como esse, não vai precisar de um investidor dizendo o que ele pode, ou não pode fazer. Essa autonomia que a internet oferece aos produtores de conteúdo é o que possibilita a diversificação do conteúdo na rede.

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Iberê, do canal Manual do Mundo. Uma versão atualizada e mais interativa dos programas de ciência na TV.

O grande desafio está em conseguir essa autonomia. Como chegar rapidamente aos 10 milhões de inscritos? Duas maneiras principais: ou você dá uma sorte danada e seu conteúdo viraliza, ou você faz parcerias com outros canais maiores do que você.

Vamos supor que um canal de moda acaba de ser lançado e tem menos de mil inscritos. Se esse canal fizer uma participação num vídeo do nosso canal de maquiagem, que tem 10 milhões, parte dessa audiência vai se interessar pelo tema e o canal de moda vai começar a ganhar mais inscritos. Se uma estratégia for adotada, envolvendo diversos outros canais e plataformas, rapidamente esse canal de maquiagem vai conseguir sua própria base de seguidores.

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Rezende Evil – YouTuber que produz conteúdo do jogo Minecraft, também está no mercado editorial.

As MCNs estão desenvolvendo essa estratégia. Ao usar canais maiores para promover os menores, eles estão apostando na diversificação do conteúdo e criando uma base de seguidores de dar inveja para muitos executivos de TV. E quando misturam diversos tipos de assuntos, eles se tornam donos de uma base de seguidores extremamente diversificada que é tão valiosa quanto a audiência da TV aberta. O resultado disso? Eles já são capazes de criar as próprias celebridades. E o poder que essas webcelebrities possuem com sua base de seguidores está começando a pautar o cinema e a televisão.

Como Geoerge Strompolos disse no Rio Content Market deste ano, Hollywood faz casting para seus projetos se baseando no volume de seguidores que as celebridades possuem. O poder de influência dos artistas que surgem na web é cada vez maior nas mídias tradicionais. Quem se cria na internet dessa maneira não depende do crivo ou do poder de mídia das gravadoras, editoras ou emissoras.

E isso vai mudar o jogo.

Roteirista e Produtor Executivo de TV, atua há 10 anos no mercado audiovisual com passagens por produtoras independentes, emissoras de TV aberta e fechada. Montou a Origina em 2015 para se tornar produtor independente, com foco em agenciamento de roteiristas, criação de conteúdo e planejamento. É diretor de Comunicação da ABRA - Associação Brasileira de Autores Roteiristas e sócio-fundador da GEDAR -Gestão de Direitos de Autores Roteiristas. Meu perfil profissional está disponível no Linkedin

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