Cultura das grades

Cultura das grades

Conhecer outras cidades, especialmente em outros países, te faz pensar mais a respeito de sua própria cidade. Sempre digo que um dos meus sonhos de vida é morar fora de São Paulo. Porém, cada vez mais, esse parece ser um sonho distante. Não porque ele seja difícil de realizar, mas porque me parece muito difícil viver sem tudo o que a metrópole onde eu nasci oferece.

Por ser paulistano, tenho muita raiva de alguns aspectos da minha cidade. Deveria existir uma maneira de tornar a convivência em São Paulo menos dolorida, mais pacífica, mais amena. A primeira delas é descentralizando essa oferta toda de arte, cultura, lazer, emprego, renda e oportunidades. A cidade só é um inferno de trânsito, poluição e violência por causa dessa concentração absurda de recursos. Num mundo cada vez mais conectado e digitalizado, cidades assim fazem cada vez menos sentido.

Cultura das grades em São Paulo

É claro que todos devem se proteger da violência de algum modo. Fechar propriedades particulares faz sentido, especialmente numa cidade com milhões de pessoas, onde ninguém se conhece. Mas levar esse conceito para os espaços públicos é, no mínimo, intrigante.

Escrevo esse texto em Buenos Aires, onde passo alguns dias de férias. O que me fez pensar nesse assunto foram os parques daqui. Já visitei alguns em Palermo e Puerto Madero. Nenhum deles possui grades. São como grandes praças abertas ao público, a quem pertencem. Imediatamente me veio à memória os parques que eu frequento em São Paulo: Ibirapuera, Cândido Portinari, Villa Lobos.  Todos repletos de grades, cercas e horários de funcionamento.

A paz como exceção

Uma grade, uma cerca, ou algo que o valha, representa uma situação de exceção. Se algo está cercado, é porque ele não deve se misturar com aquilo que está ao seu redor. Pelo menos não de modo permanente. Portanto, quando cercamos um parque, estamos implicitamente dizendo que a natureza, a tranquilidade, a harmonia e a convivência entre as pessoas são situações de exceção na cidade.

Dentro do parque é possível vivenciar essas experiências e desfrutar de uma certa paz. Fora dele, está autorizada a barbárie. Ou você possui seu próprio local para cercar e ter paz dentro dele, ou você estará condenado a viver na baderna com breves momentos de paz nos períodos em que o parque estiver com as grades abertas.

E ao contrário do que se pode imaginar, grades também geram violência. Afinal, todos queremos ter paz, fugir do sofrimento, nem que seja por alguns instantes. Aqueles que não têm oportunidades de vivenciar isso, certamente passarão a desejar as coisas que estão no interior das grades alheias. Você já sabe onde isso vai dar.

Particularmente, não gosto dessa idea da paz como exceção. É preciso repensar essa cultura das grades em parques públicos. E vocês? O que pensam a respeito?

 

Roteirista e Produtor Executivo de TV, atua há 10 anos no mercado audiovisual com passagens por produtoras independentes, emissoras de TV aberta e fechada. Montou a Origina em 2015 para se tornar produtor independente, com foco em agenciamento de roteiristas, criação de conteúdo e planejamento. É diretor de Comunicação da ABRA - Associação Brasileira de Autores Roteiristas e sócio-fundador da GEDAR -Gestão de Direitos de Autores Roteiristas. Meu perfil profissional está disponível no Linkedin

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